Pedro Santos
com Luís Ventura
Pedro Santos Arquitectura
2015
Falar desta obra é falar de natural…de natureza.
O local onde se implanta é delimitado por árvores autóctones de médio e grande porte, o que nos “obriga “ a pensar o lugar como uma continuidade de forma a tirar partido da estrutura arbórea existente. Assumidamente, e de acordo com a envolvente, o processo construtivo é madeira. Esta opção vai desde a estrutura até ao revestimento passando pela caixilharia e mobiliário, resultando num objecto de formas simples e de forte personalidade. O cenário de riqueza inconfundível no exterior foi materializado no interior, na forma, na escala, nos materiais e no conforto. A estrutura resulta de uma reciclagem de materiais, conseguida pela combinação de vigas de cofragem usadas e perfis metálicos em “i” reutilizados. De uma forma natural, o revestimento em “osb” acontece por ambas as faces da estrutura, no exterior para criar a base para receber o acabamento em cortiça e pelo interior como acabamento final, mas sempre com função estrutural.
O interior é caracterizado por um grande espaço amplo no nível térreo, dividido em diferentes pés direitos onde funciona a corpo operacional do atelier. No primeiro piso o espaço de sala de reuniões e gabinetes é intimamente ligado ao grande pé direito através de aberturas que rasgam a textura de um ripado em “casquinha”.
No exterior a opção de revestir a cortiça, mais uma vez, nos aproxima a um produto natural e de grande proximidade com a envolvente. A fusão é conseguida através do espelhado dos vidros, em que os limites são quase imperceptíveis.
Os pormenores, embora de grande simplicidade, fazem parte do conjunto desta obra e traduzem num todo a tranquilidade necessária a um espaço desta natureza. Toda a caixilharia de madeira foi desenvolvida em virtude da imagem final, onde foi possível introduzir novas técnicas e novos conceitos. Ao mesmo tempo que várias peças de mobiliário em madeira foram igualmente desenvolvidas para reforçar a caracterização e identificação do espaço.
No limite das planícies do rio Arunca, e vincado por um talude coroado por uma rua privada da Quinta, o terreno é fortemente caracterizado pelos diferentes níveis de cota pontuados por árvores aleatórias.
A exigência dos clientes era única e objectiva, também pouco flexível, ambos defendiam saberes e experiências vivenciais diferentes, e tudo isso era reflexo de um só projecto. A receita estava em cruzar a informação conseguida pela análise individual de cada um e transforma-la em conceito levado até as ultimas consequências sem o desvirtualizar.
A solução de adequar o projecto ás duas cotas distintas, resolveu a volumetria e parte do programa. Paralelamente houve o cuidado de conduzir a luz a todas as zonas da habitação de uma forma simples e directa sem se sobrepor à envolvente. O piso térreo assume-se como um largo muro de suporte em pedra, que alberga todo o programa de serviços domésticos e garagem. O piso íntimo descansa sobre o dito muro, projectando-se sobre a sala de estar limitada a panos de vidro, fragilizado pelo deslocamento do pilar no limite da viga. O volume de betão esconde os vãos e valoriza a privacidade, como se retirassemos fatias de um bolo privilegiando o núcleo.
A luz atravessa os volumes em todas as direcções e nos vários sentidos.
O homem pode viver a arquitectura como a pensa,
Mas vive na arquitectura como se sente bem.
A arquitectura não é só para os outros,
Mas é mais arquitectura quando é para nós.
A arquitectura complica-se quando somos os próprios clientes.
A arquitectura tem os clientes mais inesperados, mas existe sempre solução.